RELÓGIO

Agora eu tenho
No meu punho esquerdo,
Ao alcance dos olhos
E de metade do meu corpo
E da boca, 
Uma lembrança 
Parte tua parte minha.
Mas se algo me irrita
Mais que ter memória inútil
É tê-la como combustível
Da minha ansiedade.

Tenho ânsia de tudo.
Das vistas e perspectivas,
Dos termos fixos e dos etéreos,
Dos vértices ou chanfros,
Do ir e do vir,
De você epiderme adentro,
E fora.

É que privam-me o tato
Qualquer cheiro de cobrança,
Qualquer marca estrangeira,
Qualquer torpor anormal,
Qualquer possibilidade
De não ser livre.
Conceder não me diz,
Maquiar tampouco,
Perverter, ludibriar,
Persuadir também não.

O acessório que me
Puseste no braço
Conta o tempo tão calado
Que chego a desejar
Ser-te acessório também.
De maneira condescendente,
Concedo, maquio, perverto,
Ludibrio e persuado
Minhas barreiras
Em benefício 
Do que me desmonta.

Contudo, não há garantia
De que a vida secundária
Torne primária.
É provável que, 
Com o tempo,
As portas se tranquem,
Resilientes que são.
Saiba disso.

[Já não lembro de quando, nem do que, quiçá do porquê. Ai, o tempo, inimigo da memória!]

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